"Na Maxwell, a responsabilidade pelo tratamento é atribuída ao corpo técnico, internos e familiares que participam do ambiente social."

Na Maxwell, o conceito de Cura
é substituído por Amadurecimento
Como pesquisadores do comportamento humano, apoiados numa abordagem de psiquiatria social, empenhamo-nos para afastar os fantasmas que dificultam o entendimento de sua realidade, com perfeito conhecimento de nossos limites, para não nos iludirmos pelos mitos de uma ciência onipotente e milagrosa.
Para alcançar esse objetivo, nos baseamos nas experiências de Maxwell Jones - que aparecem em 1942 na Inglaterra como tentativa de desconsiderar a visão do "doente mental" como entidade irrecuperável - e que marcaram os primeiros passos da nova psiquiatria institucional comunitária estabelecida sob as bases essencialmente sociológicas. A ação terapêutica a ser alcançada é viabilizada pelo estabelecimento do princípio de igualdade como ação terapêutica do trabalho.
Por acreditarmos que a dependência de drogas é uma resultante dos fenômenos psico-sociais, viabilizamos a estrutura de uma micro-sociedade, como se fosse um pequeno município, onde cada munícipe ou comunitário, vive os papéis existentes dentro de uma pequena sociedade, exemplo: jornalista, repórter, radialista, professor de natação, recepcionista, prefeito, secretário de esportes, secretário de atividades sociais da casa, discotecário, ator, enfim, considerando as limitações, tudo a que podemos conceber existir dentro de um pequeno município.
A tentativa de reprodução da macro-sociedade envolve o ambiente do hospital e as pessoas que nele trabalham. Procura-se afastar o máximo possível a imagem de um "hospital", oferecendo-se ao interno um ambiente físico favorável à execução de atividades sociais, culturais e esportivas. A esse ambiente chama-se sócio-terapia, que nada mais é que uma forma psico-terápica de abordagem. Neste clima democrático procuramos todos, Psicólogos, Assistentes Sociais, Terapêutas Ocupacionais, Professores de Artes, Educação Física, Coral, Música e Teatro, Enfermeira, Médicos e internos, com o respeito devido e sem a afetação de falsos moralismos, promover condições para que o indivíduo "comunitário" assuma responsabilidades, desenvolva a afetividade, integre-se com a família e com a sociedade.
A concepção de comunidade terapêutica como método de tratamento se dá colocando-se em plano de igualdade equipe técnica e população de comunitários internos, ao invés de fundar-se sob um sistema hierárquico. Desta forma, cada personagem vai em busca de seu papel, vivendo e discutindo as suas contradições em um campo seguro e democrático. A utilização deste princípio possibilita o despertar da responsabilidade individual e grupal e objetiva estimular a participação de todos nas atividades focadas, como meio de afastarmos o processo de alienação da realidade pessoal do interno.
O direito de participação igualitária entre corpo técnico e internos é o que habilita o cliente a conhecer o campo de suas possibilidades de realização, como ser integrado a um agrupamento humano, viabilizando a utilização de seus recursos biológicos, psicológicos e sociais, em favor do próprio crescimento e engajamento a realidade pessoal e social. Isto exige por parte das pessoas nela envolvida uma constante vigilância, para que o princípio de autoridade não acomode, corpo técnico e comunitário, no desempenho de papéis cristalizados. Preserva-se assim o sentido de oposição, contestação e identificação das fontes de poder.
A responsabilidade pelo tratamento é atribuída ao corpo técnico, internos, familiares e estagiários que participam do ambiente hospitalar.
O condicionamento de atitudes conformistas, de esperança messiânica de salvação, os rótulos, "doente mental", "esquizofrênico", "alcoólatra" e "toxicômano" são formas usuais de controle de nossa sociedade para cultuar a passividade, o fatalismo e os determinismos biológico, social e filosófico. O hábito de oposição e de questionamento, dentro de um clima terapêutico, favorece a aproximação da realidade objetiva, afastando a possibilidade da pessoa recorrer a delírios, processos psicóticos, como meio de camuflar a impotência pessoal.
É preciso deixar claro que é de grande importância o estudo das drogas enquanto mecanismo de ação no organismo sendo entretanto impossível tentar definir este uso de forma homogênea. Por mais que façamos análises bioquímicas ou tenhamos conhecimentos psicofarmacológicos, e por mais que se possam descrever as reações que estas substâncias desempenham no organismo, a maneira de reagir e viver a experiência é altamente diferenciada em cada ser humano. As formas de reação drogas vão depender basicamente da interpretação psicosocial que é dada por cada qual na utilização, pois cada indivíduo ou grupo de indivíduos reage ao uso de determinadas substâncias de acordo com a biografia que lhe é peculiar; isto é, de acordo com as vivências e situações introjetadas ao longo de suas vidas.
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